Relato Sobre a Customização de um Sistema de Som de Alto Nível


Autor: Eduardo Martins. Um estudo completo sobre este tema foi publicado no site do autor em: www.hifiplanet.com.br (em português). Link para a matéria aqui.
 
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Mais uma vez abordo aqui o tema que me levou a escrever uma série de artigos sobre a personalização de um sistema de som de alta qualidade. Quando amadureci as minhas experiências sobre a adequação de um sistema de som às particularidades auditivas de cada ouvinte, acrescentando relatos de médicos especialistas no assunto e muitos depoimentos de profissionais e entusiastas de som, acabei concluindo a eficácia do método, o que me levou a escrever um artigo em inglês e distribuí-lo para diversas publicações estrangeiras.

Optei por não enviar o artigo para nenhuma publicação nacional, até porque já identifiquei resistências à idéia em formato de críticas ao tema aqui desenvolvido. Confesso que isso era até esperado por mim, diante de tantos interesses pessoais envolvidos e com o atraso de alguns profissionais da área, o que coloca em risco conceitos ultrapassados e metodologias pouco eficazes criadas para tentar dar uma falsa seriedade a métodos pouco científicos de avaliação, repletos de forte dose de uma perigosa subjetividade.

Mas, me surpreendi com a reação das publicações internacionais, que apesar de aprovarem totalmente o método, se mostraram preocupadas com a divulgação da idéia e suas consequências ao mercado audiófilo.

Tenho muito contato com editores e avaliadores de diversas publicações européias e americanas, e eles se mostraram muito animados com a aplicação do método aqui apresentado, comprovados na prática até por alguns deles. Mas, além do silêncio inexplicável de alguns, outros mostraram grande preocupação com a forma que as suas avaliações passariam a ser interpretadas depois que a idéia fosse exposta. Disseram que isso colocaria em uma situação muito complicada a metodologia de avaliação realizada por alguns deles, e também poderia provocar reações preocupantes do mercado (ou seria de anunciantes e patrocinadores?).

Dois editores prometeram publicar em breve o artigo, mas sem data certa.

Outros, depois de demonstrarem as suas preocupações, passaram a ignorar o tema em nossas conversas. Mas, foi um avaliador de uma destas publicações que chamou a minha atenção para algo que eu não havia pensado. Segundo ele, o conceito de personalização de sistemas de som é real, e que ele também pôde comprovar este fato na prática. Ele acha que isso não poderá ficar desprezado por muito tempo, e haverá um momento em o tema terá que ser abordado. Mas, ele acredita que quando isso acontecer virá na forma de algo “descoberto” por um destes editores, ignorando as abordagens iniciais que dei ao tema. Assim, ele me sugeriu divulgar o artigo no maior número de lugares que eu puder, para que a origem desta técnica seja realmente conhecida.

O mais curioso é que não pedi um único centavo por este trabalho, e nem quero qualquer benefício econômico com ele, já que ganho a vida com outras atividades profissionais que ocupam todo o meu tempo disponível para trabalho, e confesso que estou num momento da vida em que desejo conseguir mais tempo para a minhas atividades pessoais, principalmente familiares.

Diante deste fato, resolvi publicar aqui a tradução do artigo enviado para aquelas publicações. Trata-se de um resumo objetivo e básico sobre o tema tratado aqui mesmo no Hi-Fi Planet, e que deverá ser publicado por mim em outros espaços públicos internacionais (fóruns, blogs, etc.), em inglês ou outro idioma.

Quem quiser colaborar na divulgação deste trabalho, pode se sentir autorizado para publicá-lo onde desejar, pois, não almejo qualquer ganho econômico com ele, bastando indicar a autoria e a origem de sua criação.

Customização de um Sistema de Som

Há muito tempo ouço que um sistema de som ideal deveria ter uma resposta plana em toda a faixa de frequência audível.

Mas, um dia conversando com um amigo médico especialista em audição, ele me disse que cada pessoa possui a sua própria curva auditiva característica, e que ela varia em função de vários fatores, como idade, exposição a ruídos, alimentação, costumes de vida, etc. E, além destes fatores, a nossa audição ainda difere por natureza própria, pois os nossos ouvidos não são instrumentos precisos e estão sujeitos a variações de formação biológica.

Após saber disso, solicitei àquele amigo algumas amostras de exames audiométricos realizados em sua clínica. Ele me forneceu um arquivo contendo resultados de milhares de exames realizados, sem nome dos pacientes, mas com sexo e idade.

Fiquei impressionado com a variedade de curvas de audição encontradas ali, parecia que cada pessoa tinha a sua própria “impressão digital auditiva”. Era incrível ver como mesmo jovens saudáveis e até crianças possuíam curvas bem distintas também entre elas.

Na figura 1 abaixo, temos um exemplo da complexidade de uma curva de audição baseada num jovem de 23 anos com hábitos saudáveis e uma vida normal numa cidade grande.  Repare a grande perda que começa a ocorrer nas altas frequências.

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Figura 1 – Amostra de exame audiométrico colhida de uma pessoa saudável de 23 anos

Isso me fez refletir sobre o conceito de som ao vivo, e até que ponto buscar numa sala uma reprodução mais próxima possível do som que cada pessoa escuta ao vivo era correta, e até que ponto ter um sistema de som totalmente plano também seria a opção mais correta.

Hoje entendo que se alguém possui um ou mais desvios em sua audição, sofrerá então um desvio de interpretação auditiva numa apresentação musical ao vivo, e acreditará que esse resultado interpretado de forma errada é a sua referência para ajuste de seu sistema de áudio.

Porém, se imaginarmos que em nossa sala de som poderíamos corrigir esta deficiência, por exemplo, ampliando as altas frequências perdidas na audição desta pessoa, poderíamos então recompor esta perda e fazer com que ela escute o som como ele realmente deveria ser, ou seja, o “som real”, e não o “som ao vivo”, me levando a concluir que estes dois conceitos são diferentes.

Resolvi aplicar esta técnica em meu sistema, e nos últimos 2 anos tenho obtido um resultado fantástico em termos de audição musical. Vários leitores de meu blog e muitos amigos têm relatado resultados igualmente interessantes nestas experiências, o que tem agradado muito a todos.

Inicialmente, comecei as minhas experiências realizando um exame audiométrico de faixa ampla, onde passei a conhecer as minhas variações auditivas. Em seguida, busquei conhecer a curva de reprodução do meu sistema de som e de sua interação com a sala, e com estes dois resultados, identifiquei uma “curva de correção” para ser aplicada em meu sistema e adequá-lo às minhas características de audição.

Percebi então que o som que passei a ouvir já não era o mesmo som que eu ouvia em uma reprodução ao vivo, parecendo um som mais “completo”, mais rico em informações e menos fatigante.

Inicialmente comecei os ajustes para adequação desta curva modificando o divisor de frequências de minhas caixas, o que não é um trabalho simples e nem acessível a todos.

Assim, resolvi utilizar um equalizador paramétrico de 10 faixas antigo que eu ainda guardava, mas pelo seu projeto antigo dos anos 80, ele introduziu um ruído de fundo além de outros problemas no meu sistema.

Mais tarde adquiri um dispositivo DSP para correção de sala (DSPeaker Anti-Mode), que por sorte incorporava um equalizador digital de grande precisão e alta qualidade, e facilidades de aplicação de curvas de “loudness”, já que os nossos ouvidos ainda sofrem interferência do volume do som em sua curva de resposta de frequências. Tudo isso facilitou os ajustes, e me proporcionou resultados mais precisos para conclusão destas experiências.

Hoje, posso afirmar que tenho um sistema de som personalizado, adequado às minhas necessidades particulares, entregando um som único e com uma experiência vibrante que jamais experimentei antes.

Entendo agora que mesmo o som ao vivo não poderia ser utilizado como uma referência absoluta para o ajuste de meu sistema de som, porque ele não é realmente verdadeiro para os meus ouvidos.

Continuo trabalhando nestes testes, realizando ajustes em sala de amigos, e obtendo depoimentos de experiências realizadas por outros usuários que leram vários artigos que escrevi sobre o tema em meu site, com o objetivo de ter uma compreensão mais ampla destes resultados.

Apenas para ilustrar este tema, vamos tomar um exemplo bastante simples.

Imagine que alguém possua uma audição com uma perda a partir da frequência de 5 kHz (acredite… as variações são bem mais complexas e muitas vezes mais intensas que isso), como mostrado na figura 2 abaixo:

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Figura 2 – Exemplo ilustrativo de uma perda de sensibilidade auditiva em altas frequências

Ao ouvir o som “ao vivo”, o nosso ouvinte sofrerá esta mesma incorreção na audição dos sons.

Imaginemos, porém, que em sua casa ele tivesse um sistema totalmente plano (apenas para facilitar a compreensão), como mostrado na figura 3 abaixo:

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Figura 3 – Resposta ilustrativa de um sistema de áudio totalmente plano

Se este ouvinte aplicar uma correção em seu sistema inversamente proporcional à sua perda, ele perceberá um som que poderia ser considerado o som “verdadeiro”, sem aquelas perdas percebidas mesmo numa apresentação ao vivo. Nestas condições o seu sistema passaria a ter uma resposta de frequência como mostrado na figura 4 abaixo, mas ele perceberia uma resposta como a da figura 5.

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Figura 4 – Resposta de frequência do mesmo sistema com a aplicação de uma correção oposta à perda apresentada na figura 3

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Figura 5 – Resultado percebido pelo ouvinte depois da correção efetuada no sistema para adequá-lo à sua curva de sensibilidade auditiva

Esta forma de ajustar o som seria algo parecido com quem usa óculos para correção visual.  O mundo real também é percebido de forma alterada por quem possui problemas visuais, e a utilização de um par de óculos realizará a “correção” necessária para fornecer uma imagem mais precisa. Se você olhar uma imagem pela TV usando um par de óculos, provavelmente terá uma imagem mais detalhada do que aquela vista no mundo real sem os óculos.

Os exemplos apresentados aqui são meramente ilustrativos para simples compreensão. Nas observações que fiz das amostras das curvas audiométricas, elas se mostraram bem mais complexas e a sensibilidade auditiva pode ainda variar entre os ouvidos esquerdo e direito, complicando ainda mais estes ajustes.

Se tivéssemos um dispositivo para usar em nossos ouvidos que pudesse corrigir com precisão a nossa curva de audição, poderíamos ter uma percepção mais correta do som ao vivo, e até ter um sistema de som totalmente plano (flat), mas, por enquanto, podemos fazer esta correção em nosso sistema de som.

E aqui fica a sugestão: Que tal customizar o seu sistema de som de acordo com os seus ouvidos?